quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Cavalhadas de Corumbá de Goiás agitam município neste fim de semana

Cavalhadas de Corumbá de Goiás agitam município neste fim de semana

As tradicionais batalhas entre mouros e cristãos, encenadas pelos próprios moradores, prometem atrair 45 mil pessoas em três dias de folia


Há mais de 1.200 anos, na Espanha, cristãos e muçulmanos travavam batalhas em nome de suas crenças. Combatiam bravamente o inimigo religioso, com lanças, garruchas e espadas. Doze cavaleiros de cada lado, um deles rei, defendiam sua posição. O objetivo era convertê-los ao seu Deus. As brigas religiosas ainda existem mundo afora, mas cenas medievais como essas só podem ser vistas, hoje em dia, em apresentações. A mais tradicional da região ocorre a aproximadamente 113km de Brasília, em Corumbá de Goiás (GO): as Cavalhadas. A festa, uma tradição que teve início no século 18, é o maior evento cultural histórico de Goiás, movimenta mais de R$ 200 mil e atrai, nos três dias de comemoração — de 5 a 7 de setembro —, cerca de 15 mil pessoas por dia. São técnicas equinas misturadas a uma boa dose de folclore para encantar o público.

A prova de que as Cavalhadas de Corumbá de Goiás são um atrativo é a ansiedade dos turistas. Muitos já estão na cidade. Chegaram com mais de cinco dias de antecedência, de lugares próximos, como Brasília, Goiânia e Anápolis. A repositora Cristina Maria Gonçalves Malheiros, 40 anos, desembarcou em Corumbá na segunda-feira pré-cavalhada. Levou comida para cozinhar, improvisou o fogão, com tijolos e grades, isopor para as bebidas e muita animação. A família toda está reunida para aproveitar os dias de festa. Ficarão até 9 de setembro. “É um momento muito bom. A gente vem todos os anos.

Aproveitamos para sair da rotina, relaxar e descansar.” A prefeitura da cidade apoia os acampamentos em área pública. É cobrada uma taxa de R$ 10 pelo estacionamento, e o dinheiro é usado para custear a segurança do local.

Durante os dias de evento, a agitação não para. De dia, a cidade fica movimentada pelas barracas de comidas e roupas e pelo som automotivo, tudo concentrado na região da Prainha. À noite, na avenida principal, mais música. Tendas são montadas e viram boates. As Cavalhadas, porém, são o ápice da folia. Começam por volta das 15h de sábado. Vinte e quatro homens, 12 de cada lado. De cá, os cristãos. De lá, os mouros. Ao todo, 15 batalhas travadas. No primeiro dia, a encenação retrata a posição dos reis e a luta de cada um para impor sua fé. A guerra continua no segundo dia e, no fim da tarde, é dada a vitória aos cristãos. Assim, os muçulmanos são convertidos ao cristianismo.

O cavaleiro mais antigo, José Quirino Gouveia de Moraes, 59 anos, participará pela 36ª vez da Cavalhada de Corumbá. Ele será o rei dos mouros. Já foi cavaleiro do meio e chegou ao posto mais alto por conta de uma escala hierárquica, que enobrece os mais antigos na apresentação. Para Juca, como é conhecido, o único motivo para correr por tanto tempo é o amor pela tradição. “Tem que gostar e, cada vez mais, se dedicar para manter a tradição e repassá-la aos próximos.” Juca e os outros 23 cavaleiros começam a preparação muito antes da festa. Os cuidados com a roupa e o cavalo, por exemplo, se estendem durante o ano todo. Já os ensaios começam 25 dias antes. “Todos os dias, sem parar. Iniciamos em 5 de agosto e vamos até o dia da festa. Nessa preparação, casa um cuida da sua roupa e do seu animal. E é caro. Mas nem colocamos no papel para não chorar”, brinca.

A produção do evento também começa com antecedência. De janeiro a janeiro, por exemplo, ocorre o Terço dos Cavaleiros — um encontro, cada mês em uma casa diferente, para rezarem o terço. Trinta dias antes das Cavalhadas, há a Troca da Coroa do Imperador. Quem ocupa o cargo precisa correr atrás de patrocinadores e parceiros, organizar e esquematizar todos os eventos anteriores aos três dias principais da festa. Cada ano, ocorre uma indicação para o cargo. Quem valida o nome são os 24 cavaleiros. Jantares também são organizados nove dias antes do evento. “Estamos muito felizes por tudo ter saído como o esperado. Só nos jantares foram 6 mil pessoas”, diz o imperador de 2015, José Marcelino de Lima, 51.

História

O comerciante e historiador Ramir Curado, 55, é locutor das Cavalhadas de Corumbá há 35 anos. Sua história de vida se confunde com a tradicional festa desde 1980. O avô e o pai fizeram parte das Cavalhadas e, agora, um sobrinho dá continuidade à trajetória. Segundo Ramir, as Cavalhadas podem ser divididas em quatro épocas: de 1752 ao início do século 19; de 1856 a 1897; de 1918 a 1956; e de 1980 e até os dias de hoje. “Em 1918, por exemplo, quando as Cavalhadas estavam paralisadas havia 21 anos, pediram ajuda dos comerciantes para comprar tecidos e enfeites para as roupas dos cavaleiros. Meu avô, que era dono deste comércio, foi o único que topou, pois era complicado, tinha que investir com antecedência e só ele quis arriscar, ou seja, se hoje temos Cavalhadas, ele tem grande culpa”, diz Ramir.

Para a presidente da Associação de Cultura e Defesa do Patrimônio Histórico de Corumbá de Goiás, Maria do Carmo Gouveia, que está acostumada a promover eventos culturais na cidade, entre todos os acontecimentos, a Cavalhada é a que mais tem representatividade para os corumbaenses. “Temos pelo menos outras duas festas na cidade, organizamos sempre as noites lítero-musicais, com as escolas, as crianças, mas as Cavalhadas fazem parte da nossa tradição e é o mais importante dos movimentos populares”, afirmou Maria Gouveia.

Economia
As Cavalhadas não só animam a cidade de 10.360 habitantes. Com a economia girando em torno da agricultura e da pecuária, nesta época, as Cavalhadas trazem dinheiro para a cidade. “Aprendemos a conviver com o festejo. Comove muito a população. Tem gente que guarda mesmo para poder consumir na festa. É um momento muito importante para a economia. As pessoas compram na cidade, artistas locais se apresentam e tudo isso levanta o comércio”, observou o prefeito de Corumbá de Goiás, Célio Fleury. Segundo o secretário de Turismo, Itamar de Queiroz, a festa custará R$ 250 mil — boa parte custeada, este ano, pela própria prefeitura, ao contrário de outros anos, quando o festejo era majoritariamente bancado por empresários. “Este ano será diferente, mas, ainda assim, tivemos muitos parceiros. Muitos empresários e fazendeiros ajudaram, doaram bezerros para os leilões, fizemos eventos anteriores e tivemos muitas contribuições”, afirmou.