sábado, 25 de julho de 2015

Contra-rebelião na Guerra Revolucionária

Contra-rebelião na Guerra Revolucionária


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I.S. Azambuja

Em uma rebelião, o maior problema do governo, ou seja, do contra-rebelde, é o fato de o perigo real mostrar-se sempre à Nação como desproporcional a uma reação adequada. O perigo potencial é enorme, mas como prová-lo com os dados disponíveis, quase sempre sigilosos e incompletos?

Como justificar os esforços e sacrifícios necessários para asfixiar uma rebelião incipiente? É justamente dessa situação que o rebelde tirará partido como fator de força.

Sob essas circunstâncias, abrem-se ao contra-rebelde quatro rumos gerais de ação, que não se excluem mutuamente:

* agir diretamente contra as lideranças rebeldes, privando-as de qualquer possibilidade de criar seu movimento, já que um movimento rebelde não possui vida própria, tudo dependendo de suas lideranças;

* agir diretamente contra as condições propícias à rebelião, pois ela não poderá desenvolver-se sem que sejam atendidas as pré-condições essenciais: uma causa e a fraqueza político-administrativa do governo. Privar o rebelde de uma causa equivale a solucionar os problemas básicos do país, embora, para o rebelde, uma boa causa seja aquela que o governo não poderá adotar sem correr o risco de perder o poder;

* infiltrar o movimento rebelde e torná-lo ineficaz ou exterminá-lo, pois em seu início um movimento rebelde é constituído, por assim dizer, por generais sem soldados; é necessariamente inexperiente e de infiltração relativamente fácil;

* reforçar sua máquina política e administrativa, já que os rebeldes tendem a estabelecer uma máquina política nas zonas rurais, objetivando ganhar a população, uma vez que o apoio desta é essencial, tanto para o rebelde como para o contra-rebelde. O apoio da população ao rebelde é conseguido através das atividades de uma minoria ativa, com base na proposição de que em qualquer situação, qualquer que seja a causa, haverá uma minoria ativa a favor da causa, uma maioria neutra e uma minoria ativa contra a causa.

Deve-se ter em conta que desmantelar uma guerrilha, prevenir-se contra seu retorno, instalar guarnições para proteger as populações rurais e investigar os resíduos guerrilheiros, são ações predominantemente militares.

Identificar, prender e interrogar os rebeldes, buscando reabilitar aqueles que possam ser recuperáveis são tarefas policiais e da Inteligência.

Estabelecer contatos com a população, impor e fazer executar medidas de controle, testar novos líderes, organizá-los, e realizar todo um trabalho construtivo necessário para a obtenção de um sincero apoio da população, são operações essencialmente políticas.

O resultado final desejado constitui uma junção dessas diversas operações, pois todas são essenciais. Se uma for nula, o resultado final será nulo, embora nenhuma operação possa ser estritamente militar ou política, pois cada uma delas tem efeitos psicológicos susceptíveis de alterar a situação para melhor ou para pior.

Outro fator, no entanto, é passível de complicar a situação: por mais desenvolvida que seja a administração pública em tempo de paz, ela jamais estará preparada para as exigências de uma contra-rebelião.

Quando o amplo objetivo de obter o apoio da população é traduzido em tarefas concretas, cada uma delas multiplicada pelo número de vilarejos e cidades, a quantidade de pessoas capazes necessárias será enorme e, geralmente, somente as Forças Armadas podem fornecer esse pessoal com a rapidez exigida.

Conseqüentemente, o governo é exposto a uma dupla tentação: atribuir tarefas políticas, policiais e outras às Forças Armadas, ou permitir que elas dirijam todo o processo, em todo o país, ou então somente nas áreas afetadas. A primeira dessas tentações não pode ser evitada, o que seria insensato.

Nesse sentido, a contra-rebelião, mais do que em outro qualquer tipo de guerra, deve estar submetida a um comando único. Ou seja, um único chefe deve dirigir as operações. Do início ao fim, se for possível.

- Adaptação das Forças Armadas à Ação Contra-Rebelde

Pouca utilidade têm. para o contra-rebelde, as forças pesadas e sofisticadas destinadas à guerra convencional. Para suas forças terrestres, o contra-rebelde necessita de armamento leve e uma infantaria altamente móvel, e para sua Força Aérea, necessita de apoio terrestre e aviões de observação de baixa velocidade, alta resistência e grande poder de fogo, bem como helicópteros, que desempenham papel vital nesse tipo de operações. 

Na guerra irregular, um mimeógrafo pode tornar-se mais útil que uma metralhadora e um soldado treinado em pediatria mais útil que arame farpado ou um perito em morteiros.

É importante, também, que as forças contra-rebeldes se adaptem mentalmente às exigências da contra-rebelião. Reflexos e decisões, considerados adequados ao soldado numa guerra convencional, não são necessariamente os corretos em situações de contra-rebelião. Numa guerra convencional, por exemplo, um soldado que não revide um ataque com todas as armas ao seu alcance seria considerado culpado pelo não cumprimento do dever. O contrário pode ser o caso numa guerra irregular.

O apoliticismo é uma reação orgânica para o soldado convencional, cujo trabalho consiste unicamente em derrotar o inimigo. Na contra-rebelião, no entanto, a missão do soldado consiste também em conseguir o apoio da população e, ao fazê-lo, ele tem que transformar-se em um político, o que, provavelmente, é o problema mais difícil da guerra revolucionária, pois ele não recebe treinamento para isso.

A teoria da guerra contra-revolucionária deve ser ensinada, tal como outro qualquer tipo de guerra, a TODOS os militares. A dificuldade surge no momento de ministrar o treinamento prático, pois quem fará o papel da população? 

O acima descrito pode ser considerado o mecanismo básico da contra-rebelião, e sua essência poderia ser resumida em duas frases: 1. é mais fácil lançar uma rebelião do que suprimi-la; 2. o êxito final depende da capacidade de construção - ou reconstrução - da máquina política a partir da população. 


Carlos I.S. Azambuja é Historiador.

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