quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Diplomacia: A decepção de Dilma com Obama

Diplomacia: A decepção de Dilma com Obama

17.09.2013
 
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A presidenta Dilma Rousseff cumprimenta o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante encontro na Casa Branca (Agência Brasil)

 Além da espionagem, Planalto não engole a "mentira" do vice-presidente norte-americano. Para o Foro de São Paulo, "Obama é pior que o Bush"

por André Barrocal

Durante a posse de Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva pediu à então secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, que levasse um recado ao chefe: Barack Obama tinha de fazer de 2011 o ano dele. O ex-presidente tinha se frustrado com Obama, mas não deixara de reconhecer a importância do simbolismo político dele. O norte-americano desembarcaria no Brasil dali a 11 semanas para uma visita oficial. Queria melhorar a relação EUA-Brasil e estabelecer laços pessoais com Dilma. Dois anos e meio depois, é a vez dela ser tomada pela decepção do antecessor.
Mesmo que decida manter a viagem a Washington em outubro, programada para retribuir a vinda de Obama, Dilma não vê mais condições para alimentar vínculos de amizade. A espionagem contra ela matou a boa-vontade e uma trapaça do governo Obama enterrou o cadáver. Daqui em diante, Dilma pretende adotar uma postura protocolar perante a Casa Branca. A disposição não deve mudar nem com os esclarecimentos cobrados pelo Brasil sobre por que a NSA precisava de um mapa da rede de comunicações da Presidência brasileira para combater terrorismo e armas de destruição em massa.

Para o Planalto, a arapongagem dos EUA contra cidadãos, empresas e autoridades brasileiras por si só já seria motivo para esfriar o clima. Mas a contrariedade atingiu níveis insuportáveis, já que Dilma se deparou com algo que só pode ser chamado de "mentira". E contada por ninguém menos do que aquele que Obama elegera para ser seu interlocutor junto à brasileira, seu vice Joe Biden.

A inverdade foi ouvida pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, no fim de agosto, em Washington. Ele viajara em consequência da primeira denúncia de espionagem, feita em julho com base em documentos fornecidos por Edward Snowden: brasileiros comuns e empresários foram alvo da NSA. Cardozo reuniu-se com Biden e externou a desconfiança de que a NSA abusara de suas funções. "Nos disseram textualmente que não faziam interceptações para finalidades políticas ou econômicas de favorecimento de empresas norte-americanas", relatou o ministro dias atrás.

A segunda denúncia de espionagem, a envolver diretamente Dilma na condição de "alvo", surgiu cinco dias depois da categórica negativa de Biden. E feriu o Planalto. Tinha sido ele, Biden, que em maio viera ao Brasil convidar Dilma a ir aos EUA e acertara a data da visita. Tinha sido ele também quem ligara para Dilma após a denúncia de julho para reiterar o convite e mostrar que o governo Obama topava receber uma delegação brasileira e explicar o trabalho da NSA. A mais nova denúncia, a apresentar a Petrobras como alvo da NSA, reforçou a desmoralização do interlocutor.

Crítico da aproximação tentada por Obama e aceita por Dilma, Valter Pomar, secretário-executivo do Foro de São Paulo, grupo que reúne partidos progressistas da América Latina, espera que as novas descobertas de fato enterrem a "amizade". Para ele, o esfriamento ficará mais fácil sem o ex-chanceler Antonio Patriota, visto como alguém que nutria "afeição" pelo modo de vida norte-americano. "A relação com os Estados Unidos ia bem no teatro, mas na vida real nunca esteve tão ruim", afirma Pomar. "A política externa do Obama tenta atropelar a nossa. Eles são contra os BRICs, a integração latino-americana e a estabilidade.

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